Engelhado


Reviso a revista e revisto-me das páginas inacabadas. Faz frio e preciso dormir.

Pesa-me a armadura de papel amassado. Pesa nos meus pés os pesares diários, notícias no papel amassado. Chove, faz frio e preciso dormir.

Releio a carta que enviaste-me pela centésima vez e, pela centésima vez, tropeço nas linhas que separam as palavras. Sangra o vazio para além das margens e inunda de lágrimas o papel amassado. Choro, faz frio e preciso dormir.

As palavras retorcidas de verbos passados no papel amassado, distraem-se no espaço que outras palavras não preencheram. Por vezes, de tão só, precipitam-se para além das bordas, no intangível além das bordas do papel amassado. Sonho, faz frio e preciso dormir.

Deito na minha cama de elucubrações e deixo-me envolver pelo texto que, diluindo-se, escorre sobre o meu corpo, tingindo-o de azul, azul escuro quase preto. Então sou todo azul, Soul todo Blues, atuando papéis de outra cena, acenando ao outro lado do rio. Despeço-me das frases e desfaço-me na margem entrelinhas coloridas. Apago a luz do lucivelo e todo o céu escurece. Alheio-me do mundo no bend do rei e no reino das trevas e sigo, ao leme do meu barco de papel amassado, guiando-me pelas estrelas que o vento não levou, para o outro lado do rio de sonhos e  de papel que e o frio amassou.

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