Dissolvência



Nada perdura na memória, entretanto, enquanto dura essas sensações, dura é a dor que causa-me.

Maldito sejas sonho. Acordo de acordo comigo. Discordo de estar sempre contigo. Viverei sozinho, no lado de fora, bem longe de mim. Esquecerei a sublimação indelével de ti, todo o querer-me querer-te mais que ter de conjugações implausíveis. Desprezar-me-ei com altivez e repugnância pois mais uma vez chego ao fim do percurso, no fim de nada onde tudo incoa sem nunca findar.

A minha vida dissolve-se em sono de noites mal dormidas e escorre em valas para o rio de outras vidas. Tenho pesadelos nos breves instantes em que dormito. Antevejo na fração de segundos dos instantes transitórios entre os estados em que permuto, o desvencilhar da minha lucidez emaranhada em teias de aranha e pêlos de cão. 

Oscito uma vida inteira. Cubro os olhos com as palmas das mãos e é quando finalmente vejo que há reflexos de luz vindos de um sol qualquer perdido no céu de outro alguém. E pela mesmas frestas entre os dedos por onde penetram os reflexos do sol, ressumbra a água da chuva fria da noite perdida no silêncio da minh’alma. Congela-me o frio que faz o sol encharcado da chuva indolente. O sol de cujo os últimos raios passaram pelas arestas entre meus dedos e transpassaram as minhas pálpebras cerradas apenas para dizerem-me que eram raios de luz apagando-se.

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