O Marcador de Página

Foto: Robin Spalding

Sentou-se ao meu lado. Tirou da mala um livro cansado, abriu-o na página marcada e, sem vontade de ser, existiu. Aquém de querer ter, possuiu-me. Senti, apenas eu, um roçagar desproposital. Quis olhar para o lado, alado sobrevoar o abismo infinito da distância entre nós. Abstive-me da minha vontade, das asas e do abismo. Olhei o lado oposto ao que ansiava para insatisfazer o meu desejo apenas com o reflexo dela nos vidros das janelas fechadas.

O tempo, indiferente a tudo e parecendo querer vingar-se de quaisquer instantes que lhe foram roubados, passava insolente à velocidade que alteravam-se os cenários no lado de fora.
Em breve chegaria o destino a destituir o sonho do seu trono efêmero, a massacrar de realidade minha ignóbil e breve vida, mas antes restava-me a imagem translúcida, trespassada de coisas várias que iam passando sem serem vistas.

E perto do fim, na iminência circunstancial de um ato qualquer, paralisei. Observei, especado, tudo voltar ao normal: O marcador para a página imediatamente posterior àquela sobre a qual ela percorria o olhar e eu a divagar entre a realidade e o sonho, entre o reflexo dela e a opacidade das coisas passantes, entre o marcador no livro e o marcador ainda no chão da minha memória circunstanciando o momento perdido.

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