A Ilha Mágica do Sr. Valter

Foto: Carlos Andrei
Amanhã de manhã de um tempo que não é este, é outro; quando, no céu desbotado, começar a dissolverem-se as estrelas perdidas no espaço vazio entre o silêncio e os sonhos; fugirei para a ilha mágica do Sr. Valter. Irei de canoa, remando devagar, apaziguado pela bruma densa e leve, manta de frio do rio mal acordado. Guiar-me-ei pelos primeiros raios que sorrateiros serpenteiam por debaixo da bruma no espelho d’água, do sol mágico que precipita-se apressado por nascer todos os dias no horizonte por trás da ilha às horas que lhe apetece o dilúculo, por vezes, várias vezes ao dia, mas que não é este, é outro.
Na ilha mágica do Sr. Valter passarei o dia, sem hora para não ser, talvez sem fim por assim dizer, ou talvez não, a brincar com os netos do Sr. Valter por debaixo das copas cheias de sombra fresca das frondosas árvores da ilha mágica. Mataremos calangos distraídos ao sol sobre as rochas desgastadas do velho rio displicente e pendurá-los-emos pela calda em varais amarrados nos troncos das árvores enraizadas no céu, como troféus, orgulho de boa caça. No dia seguinte, sem memória do que foram, serão calangos distraídos sob o sol, sobre as rochas do velho rio onde a ilha esconde-se do mundo, esperando de nós outra pedrada certeira sem saber, entretanto, que esperam. Mergulharemos nas águas do rio que esconde a ilha até o mais profundo que conseguirmos e quando acabar-nos o fôlego, atravessaremos toda a extensão imensurável do infinito para o outro lado submerso do imaginário esquecido. 
Brincaremos até o dia, cansado de ser dia, despir-se de sua túnica de luzes multicoloridas e vestir o seu pijama de estrelinhas cor neon. Então sentaremos em volta da fogueira que arde indefinidamente no centro da ilha à aquecer do frio nossas ideias impossíveis que vem à tona nesse lugar improvável e, a fim de acordar o sono adormecido, ouviremos histórias de faroeste citadino, fantasias e aventuras, contadas pelo pai dos netos do Sr. Valter. Quando não mais possível for ficar acordado, dormiremos em camas feitas das nuvens que, nas noites da ilha, descem do céu, para encher de brancura a escuridão dos olhos cansados que se fecham para os sonhos e se abrem para a realidade de nunca mais voltarem a ver a Ilha Mágica do Sr. Valter.

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