Se Então

do espetáculo NIGREDO da Cia Maurício de Oliveira & Siameses
Quando é hora de parar, eu paro.
Quando é preciso falar, eu calo.
Se tenho que prosseguir, eu sigo.
Se é para te seguir, eu finjo.

Se saio na chuva é porque não tenho chapéu.
Mas se for para ficar, eu fico e na hora de ir, não vou.
Se é para acordar, desperto, para despertar, não durmo.

À nadar, sou nada.
À correr, socorro.

Se quiser um abraço, há braços.
Na hora de soltar, não largo, tenho força, seguro.

Quando me olha, vejo.
Quando te vejo, desejo.
Quando te tenho, sonho.

Se chorar, não choro.
Teu carinho, não quero.
Se demorar, espero.
Se não chegar, cancelo.

Se eu te chamar, não venha.
Se eu te amar, desdenha.

Para desenhar, tenho lápis.
Para escrever, nada.
Para dizer, tudo.
Para ser, eu.
E para não ser, também.

Se tropeço, caio.
Se eu cair, não levanto.
Viro-me no chão até ter os pés no céu.

Para me aluir, ilusões.
Para me iludir, soluções.
Para me seduzir, saudações.
Para me descobrir, seduções.

Do gosto, não gosto.
Do desgosto, tão pouco.
Mas para gastar tenho a vida.

Da minha inexistência tenho consciência.
Desta, vergonha e daquela, saudade.

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