Madrugada Cheia de Mar



Vou encher de mar a madrugada
Vou fechar os olhos e submergir nas águas escuras da noite.
Vou afogar minha vida de sonhar acordado no mais profundo que conseguir.
Vou deixar flutuar errante meu corpo na superfície ondulada do céu alaranjado.
Que me levem as marés para aonde não posso ir acordado.

Vou encher de mar a madrugada
Inundar o céu até cobrir o sol e abster o tempo do seu cansaço infindo.
Vou içar as velas da minha nau partida e velejar entre as nuvens dispersas do horizonte.
Vou me cobrir de silêncio e deixar meu corpo diluir vagarosamente no vazio de tudo.

Vou amar o mar da madrugada
Como o nevoeiro, unir dois céus.
Metade de mim terá a densidade e voluptuosidade de um 
E a outra metade, a subtileza e devassidão do outro.

Vou encher o mar da madrugada 
Gota a gota, milímetro por milímetro
Até transbordar o céu de infinito

Vou deixar cair a noite das minhas mãos, 
Pó da ampulheta do tempo que é só meu, 
E ser levada pelo vento uivante que entra pela greta da janela mal fechada da minha alma cansada.

Vou fincar meu corpo com os reflexos das luzes multicoloridas que serpenteiam marginais sobre a insólita placidez da minha vida lúgubre.

Vou me atirar às ondas do mar revolto para que, submerso, me levem de volta em voltas descontroladas à praia deserta dos meus sonhos infantis.
Vou deixar meu corpo jogado na areia afogar-se no ar da praia incauta, rebelde com suas rochas duras à emergir contra a madrugada cheia do meu mar.

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