Chá da Tarde

Praia dos Pescadores - Albufeira

Preciso do resto de sol que ainda há. Encontro-me em estado vegetativo. Cada segundo que passa, passa sem utilidade alguma. Estou vazio de mim mesmo, desolado na futilidade vulgar dos meus dias. Por vezes tento me virar do avesso, ser o eu que subsiste na sub existência da realidade. Atiro-me ao meu secretismo obscuro mas sou absolvido pela percepção subliminal do mundo exterior. Atiro-me à fatalidade dos sonhos mas sou sugado pelo ralo da vida comum. Aborrece-me muito toda a trivialidade dos seres, a repetição de tudo sempre se repetindo.

Perco-me em olhares furtivos. Não significam nada, não me levam a lugar nenhum. São como uma brisa que passa e imprime qualquer sensação sem força: apenas um leve frescor efêmero, uma acentuação passageira do frio.

Do lado de fora os autos passam velozes à escorrer tinta fresca no asfalto movediço. As pessoas deformando vão se misturando ao líquido das outras pessoas e das coisas. Toda matéria sólida liquefeita são as águas de um rio calmo, denso e colorido que deságuam no mar da minha vida.

A caneta, suspensa no ar, espera por palavras quaisquer que possa escrever, mas tenho o pensamento e a visão turvos, uma turvação imaginada, germinada no meu inconsciente falho.

Perco-me no meu eu inexistente. Abandono-me. Tento em vão uma ligação entre minhas partes ou o que resta delas. Tenho sono, muito sono e é quase tudo. Vou tomar um pouco mais de chá e de sol.

Comentários