Aquele Olhar



Avilta-me vontade de ser outro impossível, desejo de transformar-me ser indizível.
Tal qual sou, amórfico de ser, dentro em mim, abstração surreal da minha inexistência desmaterializada; não posso mover-me no caminho improvável do meu desejo de estar, pela ínfima distância infinita daquele olhar.
Insurge eminente sobre mim toda a sua força de não ser.
Sirva-se da minha angústia de não ter ter.
Põe-me de rastos, serviçal dos teus caprichos e devaneios loucos.
Martiriza-me com tuas ideias absurdas, injeção de insanidade nas artérias do meu rio de águas frias.
Escarneça-me com teus motejos sarcásticos.
Troça de mim ante o plenário dos meus semideuses.
Atira-me do alto altar dos teus sacrifícios infames, sacrílego que sou, profanador das tuas veneráveis veracidades utópicas.
Assista desabar sobre mim o pesado mover do universo, à massacrar os movimentos da minha inércia.
Nada perdura na memória, entretanto angustia-me saber que o exterior move-se em espiral e ao interior cominará novamente, com outro olhar, as mesmas sensações desse instante fustigante. Talvez, no recorrer do momento, algo seja diferente, mas só talvez.
Ainda assim, apesar de tudo, valeu a pena aquele olhar.

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