Instante Final Inconspícuo

Tenho, faz anos, a insana consciência de minha inutilidade e desvigoramento. À poucos instantes, no bar do qual me amiudei, dei meu último gole e minha última tragada. Na sucessão dos acontecimentos, transpassando o momento presente, desabarei solenemente da cadeira do balcão ao chão duro sob meus pés. De cara no chão e olhos cerrados, aguardarei com uma paciência que nunca tive que tragam meu nada requintado esquife, provisório imagino, não tenho certeza. Certeza tenho que logo surgirá o burburinho do acontecimento, mas não incomodar-me-á toda a balbúrdia dos curiosos em breve reunidos ao redor, nem mesmo as mãos pesadas da socorrista gorda a eletrocutar-me em vão. Nada, absolutamente nada e ninguém, coadjuvantes no próximo ato, tirar-me-ão a paz do instante. No final, não sentirei nem mesmo o impacto do meu corpo estatelando.