Instante Abstrato

Quis não querer-te nem um pouco muito menos tanto assim. Quis que a possibilidade do que poderia ter acontecido tivesse sido irreal. Quis tivesse sido apenas um sonho desses em que despertamos no momento que antecede a melhor parte. Não foi sonho. Foi um momento real, desses que precedem o sonho. Agora, no estado em que me encontro, não me encontro mais em mim. Lôbrego e taciturno me afundo profundo nesse charco de impossibilidades e improbabilidades. Prefiro assim. Prefiro toda essa dor latente e essa agoniação infinda à ter que buscar inspiração no azul do céu azul e suas nuvens escleróticas. 

Volto incontáveis vezes ao mesmo lugar, remonto mentalmente todo o cenário e tento, em vão, transpor o tempo e a realidade, reconstruir o momento e continuar o ato do ponto em que a razão mancomunada com o destino estragaram tudo. Então vem a dor. A indolente dor causada pela fraqueza de não estar à altura dos meus pensamentos, desejos e devaneios. 

Faço do fato um quadro abstrato e me abstraio em todas as suas possíveis interpretações. Todas elas levam-me por caminhos que antagonizam o supostamente certo, e todos eles são incertos. Não importo-me com isso. A incerteza dá sentido ao grande caos formado dentro de mim. 

O dia amanhece sob olhares que vislumbram novos horizontes, mas eu, entorpecido e paralisado no instante subliminarmente fatídico da noite anterior, tenho meu olhar perdido na projeção dilucular que faço dela no infinito.