Volver

Quase sempre algo fica para trás e me faz voltar, e toda vez que volto, refaço duas vezes o mesmo caminho, atento se nada pelo caminho se perdeu. Vez ou outra encontro alguns sonhos perdidos, sentimentos esquecidos e um pouco de sorte; outras vezes apenas as pedras do caminho e é quando descubro que aquela pedra que tinha no meio do caminho continua por lá e eu também nunca me esquecerei de todas as pedras que tinham no meio do caminho. Mas, apesar de todos os tropeços ou surpresas das voltas que dou, consigo seguir em frente do ponto em que voltei levando comigo o que havia esquecido. Porém agora, temo que voltar não seja mais possível, terei que conviver com o vazio de tudo que deixei, que esqueci e que não pude trazer. Alguns vazios preencherei com lágrimas, outros com o tempo e alguns poucos com nada.

E nesse exato instante posso sentir o chão se diluindo sob meus pés. E nessa vertigem sem nexo encontro-me cambaleando por ruas que nunca passei, procurando coisas perdidas em caminhos que não andei, voltando a um lugar que não estive para buscar algo que não esqueci. Mas, ainda que totalmente perdido nesse lugar sem volta envolto pelo negrume denso dessa noite sem minhas estrelas preferidas, estou feliz por estar aqui pois trouxe comigo o essencial e tudo o que esqueci, apagarei da memória. Voltar, talvez eu volte, a verdade é que toda volta é uma ida, pois, apesar dos caminhos serem os mesmos, os tempos são outros. Talvez eu volte, talvez eu fique, talvez não.

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